terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A MARCA


   Por sobre a mesa andava escrito que alguém já estivera por lá. Quase invisível, restava a mancha do sangue passado, talhado na madeira, tocando a seca palma do moço curioso. Devia ter tido dor, assentiu inquieto, olhando ao pedaço de madeira manchado, teimoso. Serrando os olhos, pôs-se a refletir: teria de existir um princípio para a mancha – nem que sua exisência fosse forjada, trôpega. Tornou-se aprumado naquele pardieiro pardarrão, tristonho, perguntando, alto, sobre a sua dúvida; a contra resposta o insatisfez, deixando-o ainda mais alto.

   Lembro-me de um dia, quando eu quase nem era um rapaz, ter visto ali, acabrunhado, o moço, muito alto. Foi uma excecão, quando me coloquei a esquecer de todo o resto: a marca na face do moço era medonha; e nesse ar imóvel resfolegava um fétido aroma que até hoje insiste em ricochetear minhas ausências. Despertei em muitas idéias, vivenciei realidades distantes, enquanto defrontava-me à marca única da sua aparência. Forcei-me depressa para fora, para nunca mais beber da marca.

   Ela era mais alta do que o moço e isso o assustou quando abriu os olhos na visagem dela, buscando se nortear. Ele a encarou severamente, ruminando memórias difusas, desconexas, tentando fazer com que a solidão de sua sobrevida se unisse a dela. Os dois se alinharam em vozes-imagens e colocaram-se a questionar a origem da mancha sobre a mesa; depois casaram seus diálogos, adormeceram mudos, face a face, estampados na madeira velha, esculpida.

   Não me recordo porque estava novamente lá, agora longe de ser um rapaz, agora longe de estar alto. Talvez tivesse voltado em busca da conexão aos meus medos, o passado das minhas fugas, a minha total abstinência ao profano. A marca da cruz por sobre minha tez foi encarada no mesmo ato pelo casal alto. Prostaram-se pedintes.

   Apenas foram alguns instantes de conversa e, ao excesso do tempo, expuseram-se por todas as marcas. A absolvição dada à mancha alegrou o casal, no alto das suas sapiências. As origens das marcas não foram estabelecidas, apenas estiveram abertas, soltas, prontas para serem escutadas. Talhando o sinal da cruz por sobre a mesa, as marcas se confundiram, se misturaram  – e eu, mesmo baixo perante tudo, pude perceber, no invisível, que por sobre a mesa andava escrito que alguém já estivera por lá.




28 comentários:

  1. Estava morrendo de saudades de seus contos!!
    Obrigada por essa beleza,próximo à essa "nossa" data de ESPERANÇA!!!!!
    Feliz e Santo Natal, meu filho amado!!
    Que o significado do verbo ESPERANÇAR lhe acompanhe todos os dias de 2012!
    Um imenso e carinhoso beijo
    Mamis

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  2. Oi Edu, que bom você de volta!!
    Li que esta preparando seu livro..não vejo a hora de tê-lo em mãos.
    muito bacana esse conto..gostei.

    Um forte abraço, Feliz natal

    abçs

    Marcelo

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  3. ESTUPENDO


    Mariacampios

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  4. Lindo Dudu, parabéns. Feliz Natal. Bjs carinhosos, Flávia

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  5. Oi Eduardo

    Saudades..muito bom essa sua "marca"
    vc. consegue marcar a minha memória.

    feliz Natal..e não se esqueçe da gente em 2012

    abraço

    Aleixo

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  6. Nossa Duca..que demais essa marca..ela faz diferença.
    Que em 2012 vc. consiga se projetar ainda mais para a felicidade de muitos apreciadores da boa leitura.Não desista, vc. PODE!!!!, acredite..seu dom é seu, USE-O com garra e perseverança!
    OBRIGADA!
    Um beijo com a minha adimiração

    Popis

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  7. Muito bacana filho
    Parabéns!!
    Feliz Natal
    Sucesso em 2012

    abração
    papis

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  8. Bem vindo Eduardo;

    Sinceramente estava com saudades.
    Este seu conto é muito bonito, como todos os demais postados por aqui..gosto do seu modo de escrever; uma forma bem elaborada, poética.
    Um forte abraço.

    Lins, tocador de bandolim.

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  9. Eduardo, que saudade!

    Parece que essa volta veio com tudo, heim?
    Muito bom esse conto; essa sua "marca" é que nem coca-cola, é isso aí, Edu,demais.

    Um abraço saudoso

    Ecila

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  10. Muito bacana..marcou a minha memória.

    Abçs

    Jurema

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  11. LIVRO, LIVRO, LIVRO!!!!!!!!


    eu quero

    LIVRO!!!!!!

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  12. Passo aqui para desejar à vc. Eduardo um Feliz 2012, cheinho de realizções!!.Que bom que o seu livro esta a caminho..que seja ele o início de uma série.
    Que você possa nos brindar ao longo do ano novo com as sua belíssimas escritas.
    Aproveito para te agradecer, pois em alguns momentos do ano que esta se acabando, pude desfrutar e me deliciar com as suas lindas poesias e contos inspirados.

    Um grande abraço

    !

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  13. Muito bom!!!!
    Alguém lá da faculdade me disse sobre vc. e vim conferir..procurei e te achei.
    Realmente vc.diferenciado.
    Entrarei aqui daqui pra frente pra ler e me instruir..tá fazendo falta por ai..

    Ana

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  14. Vamo pro livro Porra! Belo 2012 Poeta Santista!

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  15. Pessoal queremos ver todo mundo que tem comentado no blog no lançamento do livro de nosso poeta favorito. Aquele que não comparecer terá seus comentários rejeitados. Programem-se!

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  16. essa marca afundou na minhalma!.

    Ui, através da sua maneira de escrever aprende-se melhor o português!

    Abçs

    Marcia amiga de Bia

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  17. Oi filho da mãe Coruja! Lindo o seu conto.
    Boa sorte na carreira literária, a sua sinceridade de expressão... sua sensibilidade e... o seu português.
    Abraço,
    Isabel

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  18. perfeito, bonito e criativo

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  19. Olá Eduardo, obrigada por mais esta obre de arte.

    Milk

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  20. DIVINA SAPIÊNCIA HEIM....PROSTAMO-NOS PEDINDES DE SUA LEITURA E DO LANÇAMENTO DO SEU (JÁ) MARAVILHOSO LIVRO!

    ABRAÇO ANTÔNIO.

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  21. Isso é uma Intervenção de seres sobrenaturais num poema, ou melhor "conto".

    KYRA

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  22. Seus poemas me fazem pensar MUITO!

    E ao relê-los gosto cada vez mais e minha visão se amplia olhando por vários prismas das sua poesias, contos, enfim, tudo o que você escreve.
    A cada publicação vou entendendo mais e mais.

    Beijo e minha adimiração

    Vovó Nina

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