quarta-feira, 31 de agosto de 2011

QUADRILHA


                                                       A quadrilha girava

                                                       Em seu centro

                                                       Acenava com carinhos





                                                       A longa saia

                                                       Rápida

                                                       Roubava o destaque

                                            

     

                                                      O cenário escuro

                                                      A lareira queimava

                                                      Todas suas vizinhas





                                                      Sábia disso,

                                                      Sestrosa

                                                      Fez-se de doente





                                                    Aos pés da cruz

                                                    Jogou-se

                                                    Santa e bêbada





                                                    Os lábios cresciam

                                                    As pernas se abriam

                                                    Ardia em febre





                                                    Gemia, virgem

                                                    Calada, gritava

                                                    Parecia dada





                                                    Sem licença, sem censura

                                                    Visitei-lhe a alma

                                                    Abandonei-me ao ventre...

                                                    Apliquei-lhe a cura.






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

DESCOBERTA


   De doideira findava a minha – foi o que a mãe pensou. Triste, caminhando entre as vozes, os meninos gritavam, a mãe passava leve,  trazendo à mão o silêncio. Só eu ralhava, complicando. A mãe lá e eu admoestando; nem a mão esquivava a minha voz  – e os meninos ali, alarmando tudo. Era assim só ao dia;  dava noite e a mãe saia, levando a minha doidice, aplacando a dos meninos.
   Não alembrava mais de quando a mãe partia ausente da minha excentricidade. Esqueci-me: meu retrato ainda era tenro e os meninos presos juntos à mãe umedecendo os lábios na pele deles, limpando os restos dos gostos, carregando na mão toda a intimidade – e eu ali, escarafunchando.
   Deu-se um dia em que a mãe seguiu deixando os meninos soltos, livres da mão. Minha doidice escapou-se junto e no meu rosto eu já me encontrava encarquilhado - bastou sentir esta ausência para postar-me longe, completamente ermo, íntimo.
   Dos meninos eu esquecera ali, aonde não caminhava mais; da mãe, no obscuro debati-me de frente e me alarmei: não sobravam mais fragmentos da imagem; a  semelhança era fraca, velha, vencida pela distância  – a figura da mãe era um vulto do seu passado, solta de toda doideira, amarrada em seus pecados. Segui a sombra restante até o dia virar noite; a mãe padecia de mais fé, estava cansada... deitou-se ali, ao lado dos outros, sem pudor, sem graça; levava nos lábios os restos dos gostos, íntimos e desconhecidos, que eram ruminados nos ossos datados, abraçados por ela. Permaneceu ali imóvel, quase morta.
   De doideira findava a minha, foi o que pensei quando vi a mãe sair em busca das suas intimidades. No retrato, por entre os ossos, figurava a minha imagem decadente, ausente de refegos, levando os lábios aos da minha mãe, dona dos meninos. Gritei-me, alarmado, descobrindo a voz emudecida do silêncio, brotando em minha mão,  proferindo o princípio das palavras.  

terça-feira, 16 de agosto de 2011

AGRADECIMENTO

Queridos amigos, parentes, distantes, " desconhecidos":  acredito que é essencial para qualquer um  o reconhecimento, o incentivo, o apontar. Vocês, nesse quase um mês de "Blog", ajudaram a indicar o caminho que necessito seguir.
Muito obrigado pelos comentários; li e reli cada um deles com muito carinho. Não é possível responder para cada um, mas quem quiser deixar seu contato e receber sempre as atualizações do meu Blog, por favor envie um e-mail para: eduardocanntho@gmail.com

MUITO OBRIGADO

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SAMBEMOS

   Hoje o Samba veio transeunte na própria essência, amplo ao estar. Foi como nunca tivesse se ausentado, restado distante, ou mesmo deitado ao capricho da não-alegria. O samba é o revés do efêmero; o Samba é. Sendo não só o ritmo puro, cauto, o Samba harmoniza o ápice do se despojar, do se doar, do verbo entregue; do bastar-se ao compor o mote ao que vai, ao que fica, ao que nunca foi.
   Hoje o Samba veio e, ao seu modo de amar, ficou. Estando ali, entre o céu e o mar, em um Domingo qualquer de verão, entregue livre a todos que transpuserem o Tempo para escutá-lo. Nesta doação total do corpo à mente, no vácuo, o Samba se despe, sem tirar nem pôr, de toda exaltação ao ser simples, verdadeiro, natural. Ao som da ordenada simplicidade, o Samba nos cativa, enternece, apazigua; torna-nos um pouquinho melhor do que um dia já sobramos, lembrando-nos o que podemos – ou devemos – ser – Por que não sê-lo?
   Hoje o Samba veio – bem-vindo. Não subsistem hora nem urgência exata para a chegada, sendo que não há – nem nunca houve – partida. Apenas há a alegria ampliada ao amor – isto basta. Fiquemos atentos, em tempo de espera, sendo e ouvindo: o Samba Vai – por e em todo sempre.


ÁLBUM:   O SAMBA VAI
AUTOR:   MARIO ADNET
ARRANJOS:   MARIO ADNET
GRAVADORA:   BISCOITO FINO
ANO DE LANÇAMENTO:   2010

crédito da foto do Mario: Nelson Faria/ Divulgação
crédito da foto do c.d: Alexandre Sant` Anna - projeto gráfico: Gisela Pecego e Duda Moraes

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

VALSA A VIR




Propaga-se cautelosamente
Pelo salão imaginário
A valsa semi-silente
De compassos binários


Chamo-a para a dança
Com voz de resfriado
Ela, cega, me lança
Um olhar desvairado


No ritmo mão ante mão
Do arpejo Sol em Ré
Rodamos sobre o chão
Nos sacando sem fé


Bastam as cores em movimento
Basta o resquício do olhar
Resta estar além de atento
Resta deixar como está


A língua se pluraliza
A boca se torna uma só
O resto se idealiza
Para a pena do Dó


E com isso a valsa cansa
Novo agora é o lugar
Os acordes são só lembrança
Do som que se entoará







segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DE NASCENÇA

   Tio-Oit era de nascença desprovido de ver. Antes de entrar na idade, ensinaram-lhe a criar todos os tipos de doces. Foi ficando assim ao arrastar de seu descobrimento: os olhos cheirando os sabores restantes nas mãos sujas, ocupadas; a pele provida de manchas, faminta; a boca aberta, inoculada. Aprendeu-se amplo, desenvolvido, até ver Açom-Branca, fugida da Lat-cidade.
    Tio-Oit  dobrado à esquina do Parque alienava seus doces. Todos os tipos os compravam, bastava o Sol ciscar por sobre a serra. Era concorrido ,desleal, e  entre o excedente restava sempre um prostituído por todos - nem de graça. Mas houve um dia em que Tio-Oit esquecera-se do tal doce longe, achegando-se à fugida Açom-Branca, necessitando-o. Foram assim apresentados: entre a dúvida e sua negação.
   Açom-Branca guiava Tio-Oit dia a dia pelo Parque, bastava a Lua estacionar na história: beberam lá, juntos, dos doze tipos de fontes, comendo os doces, sobejando um - só na graça. Foi ficando assim até Oit-Açom juntarem as sílabas e formarem as letras: amofinaram-se do doce dando à graça.
   Açom-Oit fugiram pra Lat-cidade, deixando a estória esquecida no Parque. Nas noites buscavam os dias, abrindo as bocas, famintas; as mãos sujas de manchas inoculadas restavam. Desocupadas.
   Oit apartou-se quando enxergou que Açom era moça ao contrário - de nascença.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ALTOPSICOLOGIA

                                             Romper as linhas do limite;
                                                    Não tê-lo
                           

                                                Caminhar olhando a si mesmo;
                                                  Fugir-se


                                                 Crer numa nova ilusão
                                                    Anular-se
                                                 Rir do berro perdido
                                               Não vê-lo


                                                 E ir beber um chope amigo

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O ASSASSINO

Ele entrou no bar
Estava só
Flertou com o copo
Dava dó.


Falava estrangeiro
Sem sorrir
Foi censurado
Por dormir.


Acordou zangado
Meio azedo
Bateu na mesa
Causou medo.


Mexeu no casaco
Lá Estava
Estufou o peito
Se matava.