Chovia calmamente fino
quando o escutei pela primeira vez. Não recordo a data da chegada, acredito que
tenha ocorrido durante o sono anterior; apenas sei que, ao auscutá-lo,
despertei. Era um som diferente: leve, melódico, bem ausente, distribuído em
meu canto, acariciado em toda sensação, apreciado pelo tempo. Coloquei-me
atento, discreto, ouvidos aguçados na dúvida suscitada pelo canto: que som era
esse?
Misturada à chuva,
ouvia-se, por sobre o canto, a aglomeração ruidosa dos outros em Romaria ao som
diferente. Curiosa, molestava a melodia; ensurdecia a si mesma compondo palavras
poucas, ásperas e breves - quase uma mentira de tantas inverdades. E o canto
diferente ali, abafado – ainda bem que o bicho não falava.
Não fui apresentado
ao porquê do bicho chamar-se Pai, mas construía um carinho pelo nome. Depois do
sumiço da Romaria, Pai ficou visível
para mim, cego por vê-lo pela primeira
vez: as penas eram azul-celeste na testa e acima do bico; sua cara e coroa reluziam o solar amarelo, e o
tom verde do seu corpo ofuscava qualquer arvoredo ao redor – enxerguei o que já sabia: Pai é um
Papagaio-Verdadeiro.
Por mais que fosse
insistido e repetido, Pai não respondia,
não retrucava – preferia cantar.
Indignada com tanta rebeldia, a Romaria retornava a cada tempo, bastava o Pai
compor um canto novo. As dúvidas emancipadas, com suas falsidades e perplexidades, quase cobriam a voz do Papagaio-Verdadeiro – e eu aqui, ao lado, cego, hipnotizado pelo
canto do Pai.
Os dias substituíram-se
e eu estava quase acostumado a acordar ao som do Pai e dormir tentando sonhar
com qual canto o Pai me despertaria. Egocentrista, tinha-o como posse, mesmo
preso ao meu canto, em total solilóquio. Acordado, quase não me alarmava mais
com as orações da Romaria, a cada dia mais inconformada – o Pai me acalmava, o Pai me embalava, e com
o Pai eu aprendia.
O período da sua
existência ali, ao lado, foi um tanto atemporal: breve ou curto só percebi quando
não fui acordado pelo Pai: fazia muito sol e eu estava preso ao som da Romaria,
incoerente com o sumiço do Pai. A indignação e a perplexidade agora cantavam
para mim, preso na dúvida calada ao sumiço. Vieram noites, voltaram dias, e a
ausência do som do canto roubava qualquer resto de repouso. Encontrei-me
inflamado, abraçando a incoerência, pecando em ira contra a Romaria, creditando
a ela o silêncio do Pai. Individualista, não vociferava o que sentia: errava
calado. Isolei-me de todos os ruídos em busca dos resquícios do som que a
memória ecoava – o reencontro seria
breve.
Foi assim, sob a luz
do luar, em um Tempo qualquer, que o Pai retornou – aos outros. A Romariria então
o aplaudia, vangloriando-o a cada palavra repetida; enfim, conseguia se
reescutar: o Pai agora falava o que já era dito.