segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ACORDADO




   Chovia calmamente fino quando o escutei pela primeira vez. Não recordo a data da chegada, acredito que tenha ocorrido durante o sono anterior; apenas sei que, ao auscutá-lo, despertei. Era um som diferente: leve, melódico, bem ausente, distribuído em meu canto, acariciado em toda sensação, apreciado pelo tempo. Coloquei-me atento, discreto, ouvidos aguçados na dúvida suscitada pelo canto: que som era esse?

   Misturada à chuva, ouvia-se, por sobre o canto, a aglomeração ruidosa dos outros em Romaria ao som diferente. Curiosa, molestava a melodia;  ensurdecia a si mesma compondo palavras poucas, ásperas e breves - quase uma mentira de tantas inverdades. E o canto diferente ali, abafado – ainda bem que o bicho não falava.

   Não fui apresentado ao porquê do bicho chamar-se Pai, mas construía um carinho pelo nome. Depois do sumiço da Romaria,  Pai ficou visível para mim,  cego por vê-lo pela primeira vez: as penas eram azul-celeste na testa e acima do bico;  sua cara e coroa reluziam o solar amarelo, e o tom verde do seu corpo ofuscava qualquer arvoredo ao redor  – enxerguei o que já sabia: Pai é um Papagaio-Verdadeiro.

   Por mais que fosse insistido e repetido,  Pai não respondia, não retrucava  – preferia cantar. Indignada com tanta rebeldia, a Romaria retornava a cada tempo, bastava o Pai compor um canto novo. As dúvidas emancipadas, com suas falsidades e perplexidades,  quase cobriam a voz do Papagaio-Verdadeiro  – e eu aqui, ao lado, cego, hipnotizado pelo canto do Pai.

    Os dias substituíram-se e eu estava quase acostumado a acordar ao som do Pai e dormir tentando sonhar com qual canto o Pai me despertaria. Egocentrista, tinha-o como posse, mesmo preso ao meu canto, em total solilóquio. Acordado, quase não me alarmava mais com as orações da Romaria, a cada dia mais inconformada  – o Pai me acalmava, o Pai me embalava, e com o Pai eu aprendia.

   O período da sua existência ali, ao lado, foi um tanto atemporal: breve ou curto só percebi quando não fui acordado pelo Pai: fazia muito sol e eu estava preso ao som da Romaria, incoerente com o sumiço do Pai. A indignação e a perplexidade agora cantavam para mim, preso na dúvida calada ao sumiço. Vieram noites, voltaram dias, e a ausência do som do canto roubava qualquer resto de repouso. Encontrei-me inflamado, abraçando a incoerência, pecando em ira contra a Romaria, creditando a ela o silêncio do Pai. Individualista, não vociferava o que sentia: errava calado. Isolei-me de todos os ruídos em busca dos resquícios do som que a memória ecoava  – o reencontro seria breve.

   Foi assim, sob a luz do luar, em um Tempo qualquer, que o Pai retornou – aos outros. A Romariria então o aplaudia, vangloriando-o a cada palavra repetida; enfim, conseguia se reescutar: o Pai agora falava o que já era dito.
   Havia muitas vozes, muitas palavras distribuídas em meu canto, mas eu ainda escutava o canto do Pai ao fechar meus olhos, despertando.