Por sobre a mesa andava
escrito que alguém já estivera por lá. Quase invisível, restava a mancha do
sangue passado, talhado na madeira, tocando a seca palma do moço curioso. Devia
ter tido dor, assentiu inquieto, olhando ao pedaço de madeira manchado,
teimoso. Serrando os olhos, pôs-se a refletir: teria de existir um princípio
para a mancha – nem que sua exisência fosse forjada, trôpega. Tornou-se
aprumado naquele pardieiro pardarrão, tristonho, perguntando, alto, sobre a sua
dúvida; a contra resposta o insatisfez, deixando-o ainda mais alto.
Lembro-me de um dia,
quando eu quase nem era um rapaz, ter visto ali, acabrunhado, o moço, muito
alto. Foi uma excecão, quando me coloquei a esquecer de todo o resto: a marca
na face do moço era medonha; e nesse ar imóvel resfolegava um fétido aroma que
até hoje insiste em ricochetear minhas ausências. Despertei em muitas idéias,
vivenciei realidades distantes, enquanto defrontava-me à marca única da sua
aparência. Forcei-me depressa para fora, para nunca mais beber da marca.
Ela era mais alta do
que o moço e isso o assustou quando abriu os olhos na visagem dela, buscando se
nortear. Ele a encarou severamente, ruminando memórias difusas, desconexas,
tentando fazer com que a solidão de sua sobrevida se unisse a dela. Os dois se
alinharam em vozes-imagens e colocaram-se a questionar a origem da mancha sobre
a mesa; depois casaram seus diálogos, adormeceram mudos, face a face,
estampados na madeira velha, esculpida.
Não me recordo
porque estava novamente lá, agora longe de ser um rapaz, agora longe de estar
alto. Talvez tivesse voltado em busca da conexão aos meus medos, o passado das
minhas fugas, a minha total abstinência ao profano. A marca da cruz por sobre
minha tez foi encarada no mesmo ato pelo casal alto. Prostaram-se pedintes.
Apenas foram alguns
instantes de conversa e, ao excesso do tempo, expuseram-se por todas as marcas. A
absolvição dada à mancha alegrou o casal, no alto das suas sapiências. As
origens das marcas não foram estabelecidas, apenas estiveram abertas, soltas,
prontas para serem escutadas. Talhando o sinal da cruz por sobre a mesa, as
marcas se confundiram, se misturaram – e
eu, mesmo baixo perante tudo, pude perceber, no invisível, que por sobre a mesa
andava escrito que alguém já estivera por lá.