domingo, 31 de julho de 2011

DE PAR

              Seu Menino negava: “ Não há Mula. Não”. Mas, assim sendo, era titicado: “ Eu vi a Mula, Seu Menino; Ela me levou”. Os boatos brotavam, a cidade sumia; Seu Menino redizia: “Não há Mula; não”. Só o Homem voltou, narrando que a tal Mula era bonita, encorpada; mas, de preferir, só o outro bicho, a vida toda  – e a noite foi ficando fria.
         Menino insistia, até dava fé, só, na negação da Mula. Seus primos esvaziavam, os caseiros foram levados, o povo ao léu secava  e a tal cisma com a mula quedava-se a cada dia mais pessoal. Estava pronto para provar da sua teimosia a ele mesmo, bastava escutar a noite estacionar e o vento vir do Norte. Apressou-se pronto. Nu.
          O olhar à noite é todo escuro, breu, mas não podia duvidar do seu pessoal. Estava despido, entregue ao frio,  ao vento,  à Lua. Congelou-se quando A viu: volumosa, dura, bem encorpada, com cabelos enrolados espraiados no ar, agarrando a sua carne,  desnudada, entregue, apaixonada. Vestiu-se com o vermelho que surgia, violentado, prazeroso. Seu Menino provou a ele mesmo, tredizendo. Saiu assim, de par, para não negar mais nada.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O SONHAR



   Cambaio nos apossa o desejoso Sonhar disperso da fugaz realidade. Embaladas aos versos obstinados e difusos elaborados por Chico, as canções compostas por Edu beiram o ápice da imaginação, rondando um limiar que risca e sorve o obscuro reino das lembranças; tudo devidamente orquestrado no restar – distante: uma sobrevida refletindo o revés da ríspida velocidade do verbo acordar.
   As excessivas cores, formatos e sabores dos sonhos, beiram o aprazível e evolutivo transitar que Cambaio oferece aos que repousarem a vista do sono em suas discretas canções. Por este vasto caminhar, a dor de um amor ausente, o conto de fadas, a negação do ser, as tímidas canções do viver quase em memória, misturam-se à pungente e necessária dor dos sonhos, fabricados pelo fatigado labutar do estar – acordado. Viver em cada todo do Sonho é a última lábia que prenuncia a urgente hora do abrir dos olhos:
   E assim, de acordo, vive-se o moto-contínuo do – na fugaz realidade – cerrar os olhos e retornar ao cambado  mundo  do Sonhar - despertando.


ÁLBUM:   CAMBAIO
AUTORES:   EDU LOBO & CHICO BUARQUE
ARRANJOS:   CHICO DE MORAES & EDU LOBO
GRAVADORA:   BMG BRASIL
ANO DE LANÇAMENTO:   2001




terça-feira, 26 de julho de 2011

ONTOLOGIA

                                                       Lendo, lendo, lendo ...
                                                       Aprendendo a não saber
                                                       Do amor, da vontade, da virtude
                                                       Ah, meu Deus,
                                                       Quanta coisa se aprende
                                                       Ao se ler!


                                                        Lendo, lendo, lendo...
                                                        Aprendendo a só viver
                                                        Da beleza, da arte, do ofício
                                                        Ah, meu Deus,
                                                        Que vontade, que vontade
                                                        De se ler!


                                                        Lendo, lendo, lendo
                                                        Vejam só; prestem atenção
                                                        No cerne da leitura
                                                        No bojo da imaginação


                                                         Lendo, lendo, lendo
                                                         Tendo todos que se ler
                                                         Nas páginas do dia
                                                         Entre o verbo morrer.
                                             

                                                      


segunda-feira, 25 de julho de 2011

MENINICES

   O pai, quieto, sua esposa, obediente, de perto observavam, só isso. A menina, obediente em sua inquietação,  procurava não expor nem o sangue nem a falta do seu entendimento - devia ter mais. Eram apenas ela, seu pai, sua mãe e o sangue.
   Tal noite veio o sangue carregado de muitas dores,  a menina ardia, seu corpo fervia ;  muda, falou: tem de haver mais - desobedeceu. Nem o pai com a mãe, tal noite, observaram a falta da ordem. A menina e seu sangue eram sós. Livres.
   Voltaram noites, vieram dias, mas o pai cismava quieto e a mãe obedecia. A falta da ordem deixava tudo inquieto;  a menina com seu sangue  estava livre e o pai com a mãe presos, até a chegada do menino, rápido. O pai, quieto, viu; a mãe obedeceu; a menina, livre do sangue, de perto, começou a entender aquele final: eram meninices, só isso, falou, observando, obediente, ao menino, quieto.

Bem-vindos!

   Prezados amigos, é com muita satisfação que inicio este meu Blog. Pretendo utilizá-lo como instrumento de divulgação do meu trabalho; um espaço virtual que será preenchido com contos e poemas  de minha autoria e pequenas crônicas sobre cds de M.P.B. Não pretendo aqui criar verdades absolutas, apenas anseio pela difusão de alguns ideais que rondam meu imaginário ( - há muitos caminhos para tal; citei apenas os iniciais, portanto nada estará fechado com tranca).
   Boa leitura a todos!

Nota: É proibido qualquer tipo de reprodução, parcial ou total, dos textos aqui publicados sem prévia autorização do autor.