De doideira findava a minha – foi o que a mãe pensou. Triste, caminhando entre as vozes, os meninos gritavam, a mãe passava leve, trazendo à mão o silêncio. Só eu ralhava, complicando. A mãe lá e eu admoestando; nem a mão esquivava a minha voz – e os meninos ali, alarmando tudo. Era assim só ao dia; dava noite e a mãe saia, levando a minha doidice, aplacando a dos meninos.
Não alembrava mais de quando a mãe partia ausente da minha excentricidade. Esqueci-me: meu retrato ainda era tenro e os meninos presos juntos à mãe umedecendo os lábios na pele deles, limpando os restos dos gostos, carregando na mão toda a intimidade – e eu ali, escarafunchando.
Deu-se um dia em que a mãe seguiu deixando os meninos soltos, livres da mão. Minha doidice escapou-se junto e no meu rosto eu já me encontrava encarquilhado - bastou sentir esta ausência para postar-me longe, completamente ermo, íntimo.
Dos meninos eu esquecera ali, aonde não caminhava mais; da mãe, no obscuro debati-me de frente e me alarmei: não sobravam mais fragmentos da imagem; a semelhança era fraca, velha, vencida pela distância – a figura da mãe era um vulto do seu passado, solta de toda doideira, amarrada em seus pecados. Segui a sombra restante até o dia virar noite; a mãe padecia de mais fé, estava cansada... deitou-se ali, ao lado dos outros, sem pudor, sem graça; levava nos lábios os restos dos gostos, íntimos e desconhecidos, que eram ruminados nos ossos datados, abraçados por ela. Permaneceu ali imóvel, quase morta.
De doideira findava a minha, foi o que pensei quando vi a mãe sair em busca das suas intimidades. No retrato, por entre os ossos, figurava a minha imagem decadente, ausente de refegos, levando os lábios aos da minha mãe, dona dos meninos. Gritei-me, alarmado, descobrindo a voz emudecida do silêncio, brotando em minha mão, proferindo o princípio das palavras.
NÃO SEI COLOCAR AQUI, UM COMENTÁRIO DIGNO, À ALTURA DESTA "MELANCÓLICA" E BELA CRÔNICA.MAS, SEI QUE GOSTEI E APRECIEI DEMAIS.
ResponderExcluirPARABÉNS EDUARDO, VC. É MESMO UM G.R.A.N.D.E. ESCRITOR.
ABRAÇO
ECILA
Filho, que maravilha!!!
ResponderExcluirNossa, que profundidade que tem esse conto!!!
Amei,adorei, muito mas MUITO MUITO!!!!
Siga, prossiga, continue,é muito talento, ou será vocação, para ficar só com vc.
Deus te abençõe, meu filho!!
OBRIGADA!!
mamis
Lindo Duca.. não desista do seu sonho.
ResponderExcluirbeijos
POPO
Descoberta fiz eu quando descobri vc. por aqui, Eduardo.
ResponderExcluirMuito lindo!
!
Duda,
ResponderExcluirTão profundo que estou boiando nas voláteis e contundentes palavras desse texto. A mão que nos segura é a mesma que nos solta, sempre. Nunca se esqueça disso.Só lastimo que amanhã você perderá os clones Badmos dando-nos aula de felicidade, complacência e superação.
Abs.
AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI
ResponderExcluirEae Eduardo
ResponderExcluirEu estava relendo seus escritos, este último mais especificamente, e reparei alguns itens na sua obra que valem ser salientados, além do seu talento nato, é claro.
Eduardo vc reparou que sua escrita é clara, concisa, precisa e que ela reflete exatamente aspectos do seu caráter, da sua estrutura psicológica? Logo ela é correta, profunda, sensível, coerente, sensata. Lembra aquela coisa que eu escrevi; “Muitos escrevem livros e teses inteiras” e vc utiliza apenas quatro cinco linhas para expor um complexo panorama contextual e uma vasta série de caracteres emocionais e psicológicos dos personagens, então, amplie quantitativamente os contos, qualidade eles já tem, precisamos mais da sua escrita límpida, cândida, genuína...
Ivan o louco
Que posso eu como sua avó comentar alguma coisa sobre tudo que vc. escreve, pois a sua escrita esta tão acima da minha capacidade.
ResponderExcluirBASTA dizer OBRIGADA!!
Todo o meu carinho
vovó Nina
É, muito bonito !!
ResponderExcluirParabéns, pelo belo conto.
Tito
"Acho que o escritor deve escrever para a alegria do leitor."
ResponderExcluir(Jorge Luis Borges)
Eduardo, através dessas palavras desse inesquecível e grande escritor, que no dia de hoje estaria comemorando 102 anos, digo que o que vc. publica, me faz me sentir mais alegre.
abç
Mariacampios
Edu,
ResponderExcluirComo sempre voce nos presentei com belíssimas "linhas", um verdadeiro aprendizado.
Continue a nos encantar com suas lindas inspirações!
Te aplaudo sempre de pé.
Um beijo carinho, desejando sempre muitas bençãos de Deus!
Eliana (amiga da sua mãe rsrsrsrs)
Filho, que beleza de conto!
ResponderExcluirMe orgulho de vc.
um abração!!!!
papis
Querido Duca,
ResponderExcluirQue bom você estar de volta !
Belíssimo conto; neste, você se supera em conteúdo e forma; é tão profundo, que preciso e quero ter calma; quero todo tempo que eu puder, para entendê-lo na essência.
Você é pura fonte inesgotável de inspiração e de talento. Presente de Deus!
Obrigada, meu querido, pelas maravilhas que você me envia.
Muito orgulho de você.
Beijo,
Tia Carminha.
Oi, Edu,
ResponderExcluirMuito denso esse conto..preciso me concentrar mais; vou tentar.Sua escrita me impressiona.Estamos no século vinte um e aqui em seu blog,não me sugere esse tempo.
Parece que quando leio as suas publicações, "retorno" para um tempo não vivido..bastante elaborada a sua forma de escrever.Me força a buscar uma aprimoramento no idioma.Isso é BOM!
Abçs
João
"Viver é etecetera".
ResponderExcluirGuimarães Rosa
E a Descoberta é etecetera de tudo que sei e não sei ainda desta sua leitura.
um beijo meu amor.
Olá Eduardo,
ResponderExcluirSeu estilo é peculiar, singular, marcante.
Não é preciso entendê-lo em detalhes mas, descobrí-lo no todo.
Gostei muito,
Abraços,
Marcelo
lindo
ResponderExcluirNossa que BONITO, gostei muito; parabéns.
ResponderExcluirMarcelo
EDUARDO
ResponderExcluirEntendí pouco
Gostei muito.
Vovó Nina.
Duca,
ResponderExcluirMe faz um bem enorme ler o que você escreve.
Beijo,
QUE MARAVILHA.
ResponderExcluirinaudito Eduardo.
ResponderExcluirparabéns mais uma vez.
Antônio.
ESPLÊNDIDO!!!!!
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